...e esgravata.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

____________________________infra-éden.



















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Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


o "Paraíso" de David Mourão-Ferreira in Os Ramos e os Remos.



_________________________________________________//
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copy-paste (com)sentido:


Vânia diz:
gosto quando tens dúvidas quase existenciais quando a questão é tão somente a escolha de uma foto
Vânia diz:
ai ai
Vânia diz:
se não for uma gaija a dar-te um empurrão
Vânia diz
:

...

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[a propósito da derradeira e/ou difícil "escolha de uma foto"]

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my 'sweet cotton club' mood: "Far Away"_Jay Jay Johanson _--¨¨-_.. .
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

___________________posso?

... de onde me vem esta culpa
de não querer amar?
Meu Deus, não tenho religião...
mas quero rezar. escutas-me?


quinta-feira, 10 de julho de 2008

_________________________de nós.


The Hotel, Room 30
, 1983
Sophie Calle.

Duas horas e um quarto. As horas esperavam por nós. Duas horas e um quarto. Nós esperávamos pelas horas e pelo quarto. Duas horas e um quarto. E nós os dois impacientes com o tempo que não avançava e os ponteiros da coragem que não andavam nem desandavam. Um desatino. A minha certeza recua. A tua vontade vacila. Duas horas e um quarto e o medo de nos perdermos. atemoriza. Duas horas e um quarto e o medo que a próxima meia hora dissipe a curiosidade. E nos separe. Uma palavra e a iminência da quebra do desejo. Duas horas e um quarto. O vazio do silêncio incita à vertiginosa queda na luxúria. Ninguém cede. Ninguém quer ser o culpado. Da quebra de todo o imaginário que sonhámos. que nos separa. que nos espera. que nos desespera. exasperante. sufoca. Ninguém quer ser o culpado da quebra ou da queda. Será crime.?. Quem cederá. Qual dois dois será o despertador da fraqueza. O relógio marca duas horas e um quarto. O meu corpo desfalece, a saliva desaparece. Os joelhos tremem, as mãos não encontram os bolsos, os olhos escondem-se e os dentes espreitam. mordo os lábios. Um tique infantil que morrerá comigo. És tu que cedes. Julgas-te adulto. Mas qual de nós terá sido o despertador?. Agarras-me os flancos com o braço esquerdo, discretamente para que ninguém do bar do Hotel repare. Arrastas-me: passamos pelo foyer, viramos à esquerda. Encontras o corredor do hotel, parece que já o conhecias. Os meus pés arrastam, rastejam e travam a sofreguidão dos teus passos na exótica passadeira persa de cor intensa. avermelhada. cor sangue-de-boi. de inspiração barroca. com motivos báquicos inscritos. Os meus calcanhares raspam a exótica passadeira, desenhando elipses, arabescos, formas e linhas sinuosas que traduzem a ilusão de um desejo contrariado, à semelhança dos trompe l' oeil . Finge-se com virtuosismo. Travo, hesito o desejo. Eu não queria ceder. Tu não querias perder. A ambiguidade do rubor da minha face: a cor da ira ou o ardor da paixão?. Paixão?. Já?. Ou ainda?. Os calcanhares enterram-se na trama das tapeçarias mas são as pontas dos dedos que disparam para o para o céu! O corpo cola-se ao teu torso, suspenso no teu braço esquerdo em assimetria com o teu corpo, ascético, vertical. lembrando-me um trecho da coreografia Solo For Two, de Mats Ek. o prelúdio da dança. cravo-te as unhas no braço e vou-te mordendo até onde os dentes conseguem chegar. O teu cotovelo escanzelado é o limite. Magoei-te. Magoaste-te. desculpa. mas dissimulas. fizeste-te de forte. - não era necessário -. A porta do quarto aparece. O número trinta surge guarnecido por pinturas idílicas de Pillement. Com a mão direita, passas o cartão pela ranhura da fechadura, empurras a porta, fazes-te passar pelo anfitrião de uma noite que já tinhas reservada.Terei sido previsível? Atiras-me para cama, fitas-me descaradamente com o teu olhar. Depois arrependeste-me da forma brusca como me atiraste. E o teu olhar é outro. Olhas-me de outra forma.Receavas a minha reacção?.E tropeças numa das tiras das sandálias prateadas com debroados brilhantes Svarovsky que ficaram presas ao tornozelo e que se foram soltando dos pés enquanto me arrastavas. Era luxo e luxúria que se esperava daquela noite. Naquele quarto. Às duas horas e um quarto. No quarto do Hotel. Para os dois. Cais em cima de mim. Fechamo-nos os dois. tranco-te entre as minhas pernas e prendes-me nos teus braços. entrelaçamos nossas línguas. Estamos cercados e somos prisioneiros dos nossos corpos ardentes e humedecidos pelo desejo. O teu peito esmaga-me. o meu. peito. rapta-me o fôlego. os sentidos. a indiferença. um aperto. "Como poderei fugir?" - interrogo-me, em pensamentos, dispensando, no entanto, que a razão me dê resposta. Entre o corpo e o corpo não há escapatória. Nós éramos o único ponto de fuga. Boca na boca, olhos nos olhos, corpo no corpo. Só nós. E os bombons sobre as almofadas, embrulhados em papel alumínio dourado, da cor da velatura de luz quente que nos despia. Perguntas-me: "como queres?"; respondo-te: "queres-me como?". dizes-me baixinho com as tuas duas mãos em concha segurando-me. amparando-me a nuca, detendo e exigindo a minha atenção, com os lábios a roçar ao de leve nos meus, e dizes-me, dizes-me, dizes-me, diz-me baixinho: -"quero-te". -"apenas isso?", pergunto-te eu. -"tudo isso. quero-te." e depois, a noite foi só nossa. foi só nossa?

[...]

Desde então, tenho-me esquecido de mim. devolve-me.



____________________significados.





«Camafeu»





do Lat. camahaeu





s. m.,





pedra preciosa com duas camadas de cor diferente, sobre uma das quais foi gravada


uma figura em relevo;




pop.,





mulher muito feia;





ant.,





selo dos reis de Portugal;





efígie dos reis nas moedas.





Priberam




.

_________________significados.

«Falso»

do Lat. falsu

adj.,
contrário à verdade ou à realidade;

pérfido;

fingido;

hipócrita;

desleal;

errado;

ilusório;

aparente;

falsificado;
adv.,
com falsidade;

de modo falso;
adj., pop.,
sítio recôndito para servir de esconderijo;
gír.,
buraco de fechadura.

loc. adv.,
em -: em vão.

Priberam.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

__________________presente.

Ofereço-te este conto cronometrado.

o meu pulso despido
sem
relógio
sem tempo contado.

o meu relógio
vestido
no teu pulso
para seres o senhor do meu tempo
com tempo
e com o tempo
contado.

Ofereço-te em desacerto emparelhado.

terça-feira, 8 de julho de 2008

__________________armário.

"Já não queremos que o espaço seja um caixão pintado para o nosso corpo que é por natureza vivo ", foi assim, nestes termos, que Lizzitsky de uma forma simples e sem advérbios de modo, abriu profícuos caminhos para se colherem, se descobirem, germinarem e se desenvolverem teses sobre a espacialidade do vazio. Consciente, ou talvez não, Sam Mendes parece ter espreitado pelo buraco da fechadura de um desses espaços a que um desses caminhos iria levar. Não sei se terá percorrido, desbravado, e explorado as suas possibilidades, mas que parecem ter servido de mote para o filme" American
Beauty "de 1999, parecem. No filme, a memória de um corpo ausente ganha forma, é figura, é presença e habita o espaço na dimensão do espaço. A assunção miraculosa. Não por se estar num lugar sagrado, que também poderá ser uma sala de cinema. com
a tela de luz branca gigante que contraria a ciência dilatando as nossas pupilas, revirando-as para um novo-outro mundo. Mas porque a memória de um corpo ausente é sentida pela mulher que chora a perda e se lança ao armário do marido morto. Se o sente, ainda existirá? O armário responde-lhe que não. Por isso chora. O armário, despido, desossado, vazio e desabitado, afigura-se como estatutária. ou como um santo sepulcro.Uma evocação da ausência. Uma relíquia. Uma resposta. Um eco, porque é a memória do outro, que ainda vive e ressoa. no lugar do silêncio. disponível. vazio. Ela sente. Porque sente. E chora. Porque uma parte do outro que a completava, lhe dava a razão-de-ser e a justificação de si, e que habitava não mais vive só mora. e demora. Na memória. No armário. ainda que despojado do corpo.
Por tudo isto, é-me difícil aceitar e admitir uma relação (identitária) entre escultura e abstracção - é por demais flagrante e evidente a entidade ou realização física que nelas se apresentam, ou representam. Já desde o modernismo que a escultura, entendida como a substituição da estatuária, retrabalha a ideia de uma ausência do corpo. Tal como a palavra. Nenhuma palavra é abstracta. Nenhuma. Existem. Se mudas, são ideia e conceitos. Se verbalizadas são matéria, são corpo, adquirem forma, porque anunciam - são milagre. Não visam outra coisa senão catalisar, esculpir algo figurativo e torná-lo matéria presente. Visa invocar, aproximar, um corpo ausente entre mim e os outros. o logos. pelo que é nos momentos sentidos em que se chora a dor da perda, carregada de luto, que o nome do ente querido que nos deixou é ainda mais vezes invocado e convocado. Proferido e chamado. Embora ele já não nos ouça, porque deixando de ser corpo, deixou de ter ouvidos. Uma memória viva que nos aconchega. nos habita. se sente. mas não chega. porque o corpo não vem, há a perda, a vazia-ausência não chega. Ainda que tenhamos uma relíquia. um armário sagrado. falta-nos o corpo.

_________________vestido branco.

















Emily Dickinson Dress, 2000
Jerome Liebling


"[...] O que me faríeis se eu viesse de "branco"? Tendes o pequeno cofre para pôr os Vivos - dentro? [...]".

Emily Dickinson, excerto de carta para destinatário desconhecido, cerca de 1861.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

___________________para não.

[Revejo-te para te redesenhar, re-sentido-me.te.nus, ouvindo-te, aceitando-me.te.nus. não vejo nada. penso em tudo. penso em nós. penso. não tenho nada].
















































































"De Volta Para Casa".

CEM - dança.




porque em tempos me esqueci de nós.

porque em tempos perdi a noção do tempo.

que era só nosso.

hoje. agora. neste momento

me confesso. me redimo .

perdida na avidez do meu tempo.

para não me esquecer de ti. para não me esquecer de mim.

de nós.

procuro-te no pulsar telúrico:

encontro-te no movimento. meu.

escondido entre os braços estendidos do sol:

encontro-te no relevo do meu corpo.

por ti decalcado. mapeado.

prendo-te nas minhas linhas [_que primeiro te emprestei e depois te ofereci e depois te dei e depois quis, e depois te pedi, mas nunca mais as recebi, devolve-mas!! _].

prendo-te nas minhas linhas. nas tais linhas... com que te entrelaçavas...

enleio-te em mim e perco-me em ti, enleio-me em ti e

perco-te em mim, porque em mim te procuro e já não te vejo;

apenas te revejo. aqui:

nesta dança carnal que em tempos foi nossa.

nos tempos de outrora.







I always thought that if I managed to photograph somebody often enough, I could never lose them. My photographs are, however, the proof of how much I have lost.

Nan Goldin in "The devil's playground".

_____________________marcador.



«Le fumeur met la dernière main à son travail, il cherche l’unité de lui-même avec le paysage.»

André Breton in “Le soleil en laisse”, Claire de Terre, Paris: Gallimard, 1966, p. 185.

______________________sfumato.



sfumato.
consumo|me|mato|se|fumo.
e mato|porque|me|mato|sfumando|te.
consumo|bebo e sorvo e fumo e sumo| sumo.
consumo|me| consumo-te|consumo|me
mo-te|sfumato|fumo|que se pressente do
corpo que se fuma|sfumato|mato|mato|mato|...
sfumo| morto|morto|morto|...
se|fumo| sfumo|morto|morto...
mando-te|se|fumo|fumo-te|quando|fumo|mate.
ma|te|mato|me|se|fumo.
se|te|fumo|mato|me|sfumando-te|
sfumando-te|mando-te|ao|fumo|
se|me|mata|
se|fumo|sfumato|
e tudo não passou de um sfumato| fundo| humo.mundo
fumo|fumo|um|umo|um|
se fumo|fumo|sfumato|mato|se fumando|
ando|
se| ando|mando|
sem acto| mato|
sem te|mato-te|
que és o|fundo|de um|mundo esfumado
sfumato.fosfato.sfumato.



["... perfect day"_Mr. L.R.].

segunda-feira, 14 de abril de 2008

________________________bilhetinho a/c.

Porque já não te amo muito pouco, quero-te muito-muito!! longe e de costas voltadas para as outras mafarricas delambidas e com os olhos doces e veermeanos viradinhos só para mim. para mim! para a rua!

Não vejo a hora de vires cá a casa e de te enfiar debaixo dos nosso lençóis para buscares o resto dos teus pertences cheirosinhos. Agradecia que não te demorasses muito – fica! fica!- porque não tenho mais nada que fazer só penso em ti. Ah! Peço-te também que me envies uma sms – liga-me ! liga-me! com alguma antecedência pois já não consigo passar mais um dia sem ouvir a tua voz para não estar presente e dizer que te amo parvo, muito! e assim aproveito e vou logo de manhã cedo à tabacaria da Avenida para não perder a edição de merda do JN de segunda-feira.

P.S. O Spínola não come desde terça-feira, anda com o olhar tristonho, arrastado, e deixa-se ficar prostrado dias a fio na alcofinha que a tua mãe lhe deu, ... já nem brinca com a bola azul do Ronaldinho gaúcho que comprámos na última viagem que fizemos a Milão, lembras-te amor?, deve sentir saudades tuas, se quiseres podes levá-lo, fica, também. Está bem?


quarta-feira, 9 de abril de 2008

__________________________ caixa postal.















há certas coisas do sentimento que só podem ser ditas de mãos dadas:

o afecto. que afecta e infecta precisa de tacto.

de facto.

[assumidamente materialista nas coisas que não fazem sentido]



















Percebes...? queres falar...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

_________________se eu gostasse do meu pescoço.

tenho a ideia de nunca ter gostado do meu pescoço. nunca. nunquinha. a memória mais recuada que guardo reporta-se, pelo menos, ao dia em que assisti à espectacular epifania e miraculosa aparição - revelação de mim própria e para mim mesma, o dia em que tive a consciência de que existia, enquanto ser pensante-actuante. momento em que tive a consciência da minha própria existência "metafísica". tão real, tão concreta, tão corpórea e material quanto irreal, abstracta e imaterial. verdade de lapalisse. a partir desse momento de refulgente aparição dialéctica nunca mais gostei deste empecilho que se atravessa a meio de dois caminhos que se queriam directos, sem entraves, sem obstruções. dois caminhos que se queriam confluentes numa auto-estrada desprovida de portagens. sem bloqueios. sem espaço de paragem obrigatória. na melhor das hipótestes seria apenas admitida a utilização da via-verde. apenas com via-verde, verdinha. permissiva. veloz. fluida. directa. linear. dinâmica. straight on. semelhante aos travellings de scorsese. não me importava mesmo nada. lançava logo uma petição caso alguém desse ouvidos a esta minha brilhante e sugestiva invenção. patenteada. uma auto-estrada onde só fossem permitidas viagens vorazes, alucinadas, impensadas, impulsivas, despidas e ardentes. de luas e para luares vociferantes de desejos e ensejos. com excessos de velocidade e altamente transgressoras de regras, códigos de estrada e de condução. uma auto-estrada cujos custos e facturas, ainda que pesadas, seriam debitadas e constatadas e pensadas só lá para o final do mês, quando já nem ninguém se lembra, ou finge não se lembrar, da tal viagem obrigatoriamente tresloucada e insana. restritamente direccionada para aqueles que querem levar uma vida errante. errada... aqueles que se vêem obrigados a passar pela auto-estrada a alta velocidade, cortam os vórtices das rotundas e trilham estradas oblíquas. porque são intrinsecamente anti-portagens, anti-paragem, anti-semáforo-vermelho, anti-bloqueio, anti-paragem. porque a paragem impele ao pensamento, os errantes não gostam de pescoços. os flâneurs errantes não gostam do seu pescoço. é um facto. o pescoço é um empecilho. porque estorva, porque incomoda, porque obriga a parar. obriga a pensar. mas por que raio há-de o pescoço situar-se logo no meio. e a meio. entre a cabeça - lugar sagrado do meu thesauros. dos meus pensamentos e sentimentos. e o corpo - templo dos meus sentidos, desejos e intentos. por que se atravessa no meio. interrogo-me. e ao meio. por que razão não há-de unir. por que razão há-de separar e bloquear estes dois caminhos que se queriam transitáveis e de alta voltagem. porque nem medeia, nem liga, deveria ser despedido, dispensado. porque não cumpre a sua função deveria ser dispensado. má patroa não sou. porque se fosse poria mão firme nos meus empregados. nem uma merda de pescoço sou capaz de demitir. é um empecilho. um estorvo que se atravessa mesmo no meio. que pára e quebra o ritmo . vive no absentismo. contra-producente. entre a razão e o sentimento. entre o corpo e pensamento. entre os sentidos e o sentimento. neste rail que dilacera e separa dois caminhos. que se atravessa à minha frente no meio de uma viagem que se queria directa, de trânsito livre. e pior. o mais grave, corrijo: se quero apenas ver a minha cabeça, ao espelho, lá aparece o pescoço à laia de emplastro, se quero apenas ver o corpo... lá aparece ele, inevitável e irremediavelmente, sem dó nem piedade. mas este empecilho, esta portagem abrupta, que se me intercepta e me obriga a pensar no caminho que quero tomar. na direcção. no rumo que devo ou tenho que querer. mas que nem sempre desejo. seguir. qual o lugar que quero fazer do meu destino. fatal.?. por que é o pescoço se atravessa aqui... a meio?. por que me obriga a parar. a pensar. exigindo uma cobrança. antecipada. pago o meu caminho, antes de chegar ao destino?. sem saber se ficarei satisfeita com o serviço da concessionária. como se já não houvesse motivos suficientes para desviar o meu percurso, a rota dos meus sentidos, emoções, viagens alucinantes de prega fundo, mete a quinta, arranca e não pares, mesmo sendo um smart jeitosinho, pequenino, e que não passa dos 120km/h... indicado para um prossível embate, portanto. por que raio se me há-de aparecer neste caminho este empecilho chamado pescoço. sobre o termo, feio como tudo, nem vou falar para não me deprimir ainda mais. sobre as respectivas linhas, relevos e formas nem me vou delongar para não me deprimir mais...ainda. o pescoço nada mais constitui do que um limbo. ponto de paragem obrigatória de incertezas. de credos. de crenças. de medos. converte-se num lugar cuja toponímia nem surge no mapa dos meus sonhos. profanos. é isso mesmo: um limbo de incertezas e de dúvidas que nos impele às dúvidas titubiantes, quando se exigia a urgência de uma resposta. de uma decisão. a culpa não é do meu pescoço, creio...quero e tenho feito esforços, bem sucedidos diga-se de passagem, para interiorizar esta ideia ou evidência. a culpa é da localização da anatomia geográfica do pescoço, sito na escalvada travessa do meio, n.º 2 andar, entalado entre o 1º e o 3º. entre o sagrado aurático e apolíneo e o luminoso báquico ultra-profano. nome feio: o meio. nome feio: o pescoço. muito feio. se se situasse nos gémeos, glúteos, trícipes, omoplatas, calcanhares ou planta dos pés, nunca...mas nunca, ninguém se lembraria dele. ou muito raramente. maldito platão que inventou esta merdice do dualismo antroplógico. se não lhe encomendei o sermão, por que raio hei-de ser eu a pagar a factura. maldito platão, maldita filosofia, se não existissem eu seria e viveria muito mais feliz, sem quaisquer complexos em relação ao meu estrangulante, asfixiante, sufocante e monolítico pescoço.

- se eu gostasse do meu pescoço pedia ao meu amor que me beijasse como gary cooper, na cena d' "a visita". assim. tal e qual. epor momentos seria como ingrid bergman...

-se eu tivesse o pescoço pequenino, discreto e mimoso, nem me lembraria dele, e fazia, e vivia como aquela cantora pop meio-doida, meio-gira, meio-irreverente, meio-tresloucada chamada pink.

[nó na garganta]// novembro de 2007.

domingo, 6 de abril de 2008

_____________________para ti.

Queria amanhecer em ti, raiar nas sombras escuras da tua
solidão, tomar-te em meus braços e aninhar-te em meu colo,
encostar o teu rosto cansado em meu peito,
e esconder os teus olhos profundos e tristes nos fios dos meus cabelos.
Agasalhar-te com uma canção de embalar até adormeceres, serenamente
e quentinho.
E por uma noite serias o anjo da minha companhia. desculpa.

Boa noite, meu
amor...


de alguém.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

______________________significados.

grã | s. f. | adj.

grã

fem. de
grão

do Lat. grana de granu, grão

s. f., Bot.,

galha de uma espécie de carvalho;

Zool.,

insecto hemíptero, vermelho, semelhante à cochinilha;
tinta escarlate obtida deste insecto;
tecido tinto com grã;
pequeno tumor que aparece no palato, próximo aos incisivos, dos suínos e solípedes.


de grande

adj.,

red. de
grande.


Priberam

terça-feira, 1 de abril de 2008

As ruas testemunham segredos, as maçãs do rosto dos apaixonados cristalizam juras de amor da cor da cereja, a doçura rósea cobre os céus, e as árvores vestem-se de branco naquela que dizem ser a cidade das mais longas e quentes noites de Verão. onde não corre uma aragem. Depois de receber um postal primaveril enviado pelo Renato, Quioto tornou-se um destino premente para a aridez dos meus sentimentos. ao contrário da cidade de Tóquio que o meu saudoso Ozu me deu a conhecer. Era eu muito novinha quando visitei Japão pela primeira vez e fui apresentada o Ozu. tinha doze ou treze anitos... Desde então a empatia foi mútua e a cumplicidade desmedida, apesar da minha tenra idade. naquele tempo aos treze anos ainda éramos crianças. Desde então, Ozu convida-me regularmente, e faz questão que fique em sua casa. A minha admiração é tão grande que me esqueço de visitar outras localidades além de Tóquio. Deixo-me ficar em sua casa, embevecida, e esqueço-me dos dias que entretanto vão passando. faz tanto frio lá fora... Ozu nunca me deu a conhecer a Primavera de Quioto, nem o perfume das cerejeiras em flor, nem as chinelas em pés descalços dos apaixonados, nem o sol de Quioto, nem os gelados de leite de soja. E foram tantas as vezes que lhe pedi para ser meu cicerone... Mas declinou. sempre. Nunca fui a Quioto. Nunca. Visito sempre Tóquio. Invariavelmente. Num Inverno frio, sombrio, soturno e sombrio. Quiçá, a razão da escolha de Ozu por esta estação em particuar seja para me privar e evitar dos eventuais incómodos sazonais de alergias, sinosites e rinites próprios das meias-estações. Conheço Tóquio. Escura e fria. A do saké bem fervido, a dos olhares melancólicos e resignados, a das mãozinhas que se esfregam, a da cidade habitada por anatomias apenas sugeridas e abafadas por envelopes de fazenda grossa na noite cerrada sombria e soturna, por entre os quais espreitam olhos a meia-haste. sem força para afugentar o frio. olhos escondidos que nem dão contam do tempo que passa. Fico com frio. Ozu empresta-me um casaco. vamos ao café. apresenta-me Akiko, uma senhora que chora sem me esconder as lágrimas. Cumprimentamo-nos e da janela do café olhamos para a rua. Árvores despedidas, sem flor, folha, ou fruto é tudo o que vemos. Para a próxima vou a Quioto e convido Akikko...

sábado, 29 de março de 2008

da insónia. do sonho. da inquietude. da dúvida. do amor. e tudo mais.













"Une vieille maîtraisse", 2007
Catherine Breillat



...e do amor...? só a minha inocência o sabe. e a tua devassidão...
não será que a pode envenenar?

sexta-feira, 21 de março de 2008

___________________________please.

























- please, come with me...
- I can't, I can't...
-please, come with me...
- don't call me Violet, please. I can't 'cause you still call me Violet.
-please, come with me...

jaz.mim_tu... aqui, deixara de o ser.

à espreita de fa|c|to & gravata.

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