...e esgravata.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

círculo de giz.



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"La Pianiste" , 2001, de Michael Haneke.




- Nunca vi um intelectual que não fosse um insensato. A guiar-nos por eles, caía-se depressa num buraco sem fundo, porque nem sequer têm experiência, só têm ideias. Limitam-se a falar de esperança, que é a mais fácil das opções.

- Não se considera um intelectual? - disse Alfreda, no tempo em que ia com ele para Kensingstom Park, vendo saltar os cães em roda dos donos.

- Eu não sei se há um judeu que se considere um intelectual. É a arma dos fracos, uma espécie de terrorismo de apartamento, isso de ler e escrever coisas (...).
Sabe que eu estive em Palermo vai para cinco anos e encontrei-me lá com uma data de intelectuais que nunca tinham escrito um livro e quase não falavam de ideias. Eram amigos de espiões, dum género que não há, que se valiam do nome de intelectuais para frquentar os clubes e os lugares onde passavam as pessoas suspeitas do mundo. Ministros e chefes de gabinete que sofriam por não perceber numa linha dos autores famosos sem os terem lido. Brincavam com soldadinhos de chumbo, quando eram pequenos e eram criados por amas burras como portas. Cresciam com uma raiva contra tudo que fosse elite do espírito, e não me admirava que por trás do ódio irracional que nada à solta pelo mundo estivesse o preconceito contra coisas como arte e pensamento. Para responder concretamente à sua pergunta, digo-lhe que o vosso Cristo foi o judeu mais absoluto que há. Acabou com o messianismo, que foi uma invenção de Salomão, um intelectual, e cacabou-o instituindo-se ele próprio o Messias. Não há melhor maneira de acabar com uma coisa senão dando-lhe legitimidade.

- Não sei se tem razão; melhor do que isso, é agradável ouvi-lo como é agradável ouvor o barulho do mar. Logo que não se queira embarcar.

- Não quero perturbá-la, não sou um intelectual, como já disse. Ensino os meus alunos, mas não os ensino a ser intelectuais. A melhor educação é oral, sem compromisso com a posteridade. Não deixo que tomem apontamentos, basta que me oiçam e que se disso fica alguma coisa já é bom.

- Tenho verificado - disse Alfreda - que não me levam a sério, lá a minha gente. Será que me acham uma intelectual? Riem-se de mim e passam a palavra uns aos outros para criar a minha fama de ser incompreensível e um pouco doida. Verdade seja eu faço tudo para os confundir. Não podem relacionar-me com outra coisa senão como uma boa dona de casa. Organizo casamentos e sou boa nisso. Nunca enganei o meu marido, é o lado mais divertido da minha vida.

excerto d' A alma dos Ricos de Agustina.

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2 comentários:

tetisq disse...

que lindo circulo ! e que lindo livro...Há uma riqueza muito grande e uma maior intelectualidade na simplicidade de ser, sem almejar classificar-se ou enquadrar-se numa categoria...simplesmente ser é mais dificil mais rico e de maior intelectualidade...bjs

flor-de-laranja disse...

ser-se, sendo-se na mais pura genuinidade não é tarefa fácil. força hercúlea essa de sobreviver-se na simplicidade descontaminada... só não compreendo a razão pela qual ainda não é socialmente aceite. os ditos parvos incomodam muita gente deve ser por isso, o gil vicente que o diga e que me defenda ;)

«é a arma dos fracos, uma espécie de terrorismo de apartamento, isso de ler e escrever coisas» - levaria horas, meses e anos a dissertar esta afirmação [paradigmática].

***outros tantos p/ ti.

jaz.mim_tu... aqui, deixara de o ser.

à espreita de fa|c|to & gravata.

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