...e esgravata.

terça-feira, 8 de julho de 2008

__________________armário.

"Já não queremos que o espaço seja um caixão pintado para o nosso corpo que é por natureza vivo ", foi assim, nestes termos, que Lizzitsky de uma forma simples e sem advérbios de modo, abriu profícuos caminhos para se colherem, se descobirem, germinarem e se desenvolverem teses sobre a espacialidade do vazio. Consciente, ou talvez não, Sam Mendes parece ter espreitado pelo buraco da fechadura de um desses espaços a que um desses caminhos iria levar. Não sei se terá percorrido, desbravado, e explorado as suas possibilidades, mas que parecem ter servido de mote para o filme" American
Beauty "de 1999, parecem. No filme, a memória de um corpo ausente ganha forma, é figura, é presença e habita o espaço na dimensão do espaço. A assunção miraculosa. Não por se estar num lugar sagrado, que também poderá ser uma sala de cinema. com
a tela de luz branca gigante que contraria a ciência dilatando as nossas pupilas, revirando-as para um novo-outro mundo. Mas porque a memória de um corpo ausente é sentida pela mulher que chora a perda e se lança ao armário do marido morto. Se o sente, ainda existirá? O armário responde-lhe que não. Por isso chora. O armário, despido, desossado, vazio e desabitado, afigura-se como estatutária. ou como um santo sepulcro.Uma evocação da ausência. Uma relíquia. Uma resposta. Um eco, porque é a memória do outro, que ainda vive e ressoa. no lugar do silêncio. disponível. vazio. Ela sente. Porque sente. E chora. Porque uma parte do outro que a completava, lhe dava a razão-de-ser e a justificação de si, e que habitava não mais vive só mora. e demora. Na memória. No armário. ainda que despojado do corpo.
Por tudo isto, é-me difícil aceitar e admitir uma relação (identitária) entre escultura e abstracção - é por demais flagrante e evidente a entidade ou realização física que nelas se apresentam, ou representam. Já desde o modernismo que a escultura, entendida como a substituição da estatuária, retrabalha a ideia de uma ausência do corpo. Tal como a palavra. Nenhuma palavra é abstracta. Nenhuma. Existem. Se mudas, são ideia e conceitos. Se verbalizadas são matéria, são corpo, adquirem forma, porque anunciam - são milagre. Não visam outra coisa senão catalisar, esculpir algo figurativo e torná-lo matéria presente. Visa invocar, aproximar, um corpo ausente entre mim e os outros. o logos. pelo que é nos momentos sentidos em que se chora a dor da perda, carregada de luto, que o nome do ente querido que nos deixou é ainda mais vezes invocado e convocado. Proferido e chamado. Embora ele já não nos ouça, porque deixando de ser corpo, deixou de ter ouvidos. Uma memória viva que nos aconchega. nos habita. se sente. mas não chega. porque o corpo não vem, há a perda, a vazia-ausência não chega. Ainda que tenhamos uma relíquia. um armário sagrado. falta-nos o corpo.

25 comentários:

Teresa disse...

Um dos meus filmes favoritos! Mas agora deixaste-me a pensar, tenho que rever o filme!

jaz.mim_tu... aqui. disse...

...
...

eu não estou a falar do filme, propriamente dito... lembrei-me dele ao ler umas coisitas relativas ao trabalho de lissitzky, ensaios e tal, com citações do próprio - que é o que mais me agrada, detesto dissertações alheias-, e ao ver/ler o catálogo de gregor scheinner, que comprei ontem em serralves, agora a um preço bastante jeitosinho :)...

a sério, não ligues... são associações minhas, parvas, momentâneas, sobre as quais nem eu própria tenho consciência do que esvrevo/penso ou escrevi...
não faças caso...

:)

[mas podemos rever o filme juntas, na próxima semana, ok? há anos que não o vejo, talvez não seja bem assim como referi, mas foi o que retive do filme... sim, vamos ver juntar, lanço o convite?!]

Teresa disse...

Vou já comprar o Calvé para que não nos falte nada!Nhamy Nhamy!!!
**********

jaz.mim_tu... aqui. disse...

.post-it.

o molho é de "alho" e não de pimenta verde :) já tenho as latas de atum e as tostinhas com sementes de sésamo e de papoila comigo!

vamos comer e cantar "vive la vie, j' aime j'aime la vie", enquanto vemos o tal filminho...:P

***

jaz.mim_tu... aqui. disse...

"tostinhas de" - irra!!

nuno disse...

Outro belo artigo que me fez lembrar o "tema" (psicanalítico) do "homem de areia" do Hoffman. (desculpe intrometer-me.)

nuno disse...

Ou o "gradiva" de freud que afinal parte do dito "homem de areia". (desculpe mais uma vez mas são tantos posts e tão interessantes que não consigo resistir)

jaz.mim_tu... aqui. disse...

muito me honra e muito dignifica este espaço com a sua "presença", nuno.

de facto, enquanto escrevia este textito momentos houve em que os meus olhos se distraiam com a outra presença, a da zoë... [mas por razões pessoais.]

;)

jaz.mim_tu... aqui. disse...

"da fixação"...

nuno disse...

Cada um de nós terá a "sua" de uma forma ou de outra, suponho, a "sua" zoe quero dizer. :)

jaz.mim_tu... aqui. disse...

:)


uff, felizmente!

nuno disse...

... felizmente ? Receio que me escape o sentido da sua manifestação. (?)

jaz.mim_tu... aqui. disse...

... por não ser a única!!!

Anônimo disse...

... a ter "uma" fixação" ?

jaz.mim_tu... aqui. disse...

ou várias, ou muitas, ou muitas-muitas, ou "fixações" desmedidas...:D

nuno disse...

Mas lara, suponho que "técnicamente", quem não tiver pelo menos "uma", das duas uma, ou está "pronto" para "marchar" até uma certa "casa amarela", ou então é ninguém, e "isso" já serão "outras" histórias de "ninguém". :) R:

jaz.mim_tu... aqui. disse...

conforta-me sabê-lo... nuno.

:)

nuno disse...

Suponho apenas lara mas de qualquer forma conforta me que se sinta confortada. :)

jaz.mim_tu... aqui. disse...

merci#2.

;)

nuno disse...

Eu é que agradeço o "privilégio" de poder trocar estas "petites" impressões consigo. :)

jaz.mim_tu... aqui. disse...

este espaço é tão prosaico, tão chão... e cinzento... que até se envergonha do brilho ofuscante das suas palavras.

hum...

eternamente grata.

[uma tarde muito impressionista, lumínica, de facto!]

nuno disse...

Lisonjear me ia se me lisonjeasse mas o "sentimento, lumínico", esse é recíproco.

...

jaz.mim_tu... aqui. disse...

admiro-o imenso, nuno.

**seus.

nuno disse...

**seus ... e já sabe que é recíproco.

... .

jaz.mim_tu... aqui. disse...

;)

jaz.mim_tu... aqui, deixara de o ser.

à espreita de fa|c|to & gravata.

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