...e esgravata.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

_________________se eu gostasse do meu pescoço.

tenho a ideia de nunca ter gostado do meu pescoço. nunca. nunquinha. a memória mais recuada que guardo reporta-se, pelo menos, ao dia em que assisti à espectacular epifania e miraculosa aparição - revelação de mim própria e para mim mesma, o dia em que tive a consciência de que existia, enquanto ser pensante-actuante. momento em que tive a consciência da minha própria existência "metafísica". tão real, tão concreta, tão corpórea e material quanto irreal, abstracta e imaterial. verdade de lapalisse. a partir desse momento de refulgente aparição dialéctica nunca mais gostei deste empecilho que se atravessa a meio de dois caminhos que se queriam directos, sem entraves, sem obstruções. dois caminhos que se queriam confluentes numa auto-estrada desprovida de portagens. sem bloqueios. sem espaço de paragem obrigatória. na melhor das hipótestes seria apenas admitida a utilização da via-verde. apenas com via-verde, verdinha. permissiva. veloz. fluida. directa. linear. dinâmica. straight on. semelhante aos travellings de scorsese. não me importava mesmo nada. lançava logo uma petição caso alguém desse ouvidos a esta minha brilhante e sugestiva invenção. patenteada. uma auto-estrada onde só fossem permitidas viagens vorazes, alucinadas, impensadas, impulsivas, despidas e ardentes. de luas e para luares vociferantes de desejos e ensejos. com excessos de velocidade e altamente transgressoras de regras, códigos de estrada e de condução. uma auto-estrada cujos custos e facturas, ainda que pesadas, seriam debitadas e constatadas e pensadas só lá para o final do mês, quando já nem ninguém se lembra, ou finge não se lembrar, da tal viagem obrigatoriamente tresloucada e insana. restritamente direccionada para aqueles que querem levar uma vida errante. errada... aqueles que se vêem obrigados a passar pela auto-estrada a alta velocidade, cortam os vórtices das rotundas e trilham estradas oblíquas. porque são intrinsecamente anti-portagens, anti-paragem, anti-semáforo-vermelho, anti-bloqueio, anti-paragem. porque a paragem impele ao pensamento, os errantes não gostam de pescoços. os flâneurs errantes não gostam do seu pescoço. é um facto. o pescoço é um empecilho. porque estorva, porque incomoda, porque obriga a parar. obriga a pensar. mas por que raio há-de o pescoço situar-se logo no meio. e a meio. entre a cabeça - lugar sagrado do meu thesauros. dos meus pensamentos e sentimentos. e o corpo - templo dos meus sentidos, desejos e intentos. por que se atravessa no meio. interrogo-me. e ao meio. por que razão não há-de unir. por que razão há-de separar e bloquear estes dois caminhos que se queriam transitáveis e de alta voltagem. porque nem medeia, nem liga, deveria ser despedido, dispensado. porque não cumpre a sua função deveria ser dispensado. má patroa não sou. porque se fosse poria mão firme nos meus empregados. nem uma merda de pescoço sou capaz de demitir. é um empecilho. um estorvo que se atravessa mesmo no meio. que pára e quebra o ritmo . vive no absentismo. contra-producente. entre a razão e o sentimento. entre o corpo e pensamento. entre os sentidos e o sentimento. neste rail que dilacera e separa dois caminhos. que se atravessa à minha frente no meio de uma viagem que se queria directa, de trânsito livre. e pior. o mais grave, corrijo: se quero apenas ver a minha cabeça, ao espelho, lá aparece o pescoço à laia de emplastro, se quero apenas ver o corpo... lá aparece ele, inevitável e irremediavelmente, sem dó nem piedade. mas este empecilho, esta portagem abrupta, que se me intercepta e me obriga a pensar no caminho que quero tomar. na direcção. no rumo que devo ou tenho que querer. mas que nem sempre desejo. seguir. qual o lugar que quero fazer do meu destino. fatal.?. por que é o pescoço se atravessa aqui... a meio?. por que me obriga a parar. a pensar. exigindo uma cobrança. antecipada. pago o meu caminho, antes de chegar ao destino?. sem saber se ficarei satisfeita com o serviço da concessionária. como se já não houvesse motivos suficientes para desviar o meu percurso, a rota dos meus sentidos, emoções, viagens alucinantes de prega fundo, mete a quinta, arranca e não pares, mesmo sendo um smart jeitosinho, pequenino, e que não passa dos 120km/h... indicado para um prossível embate, portanto. por que raio se me há-de aparecer neste caminho este empecilho chamado pescoço. sobre o termo, feio como tudo, nem vou falar para não me deprimir ainda mais. sobre as respectivas linhas, relevos e formas nem me vou delongar para não me deprimir mais...ainda. o pescoço nada mais constitui do que um limbo. ponto de paragem obrigatória de incertezas. de credos. de crenças. de medos. converte-se num lugar cuja toponímia nem surge no mapa dos meus sonhos. profanos. é isso mesmo: um limbo de incertezas e de dúvidas que nos impele às dúvidas titubiantes, quando se exigia a urgência de uma resposta. de uma decisão. a culpa não é do meu pescoço, creio...quero e tenho feito esforços, bem sucedidos diga-se de passagem, para interiorizar esta ideia ou evidência. a culpa é da localização da anatomia geográfica do pescoço, sito na escalvada travessa do meio, n.º 2 andar, entalado entre o 1º e o 3º. entre o sagrado aurático e apolíneo e o luminoso báquico ultra-profano. nome feio: o meio. nome feio: o pescoço. muito feio. se se situasse nos gémeos, glúteos, trícipes, omoplatas, calcanhares ou planta dos pés, nunca...mas nunca, ninguém se lembraria dele. ou muito raramente. maldito platão que inventou esta merdice do dualismo antroplógico. se não lhe encomendei o sermão, por que raio hei-de ser eu a pagar a factura. maldito platão, maldita filosofia, se não existissem eu seria e viveria muito mais feliz, sem quaisquer complexos em relação ao meu estrangulante, asfixiante, sufocante e monolítico pescoço.

- se eu gostasse do meu pescoço pedia ao meu amor que me beijasse como gary cooper, na cena d' "a visita". assim. tal e qual. epor momentos seria como ingrid bergman...

-se eu tivesse o pescoço pequenino, discreto e mimoso, nem me lembraria dele, e fazia, e vivia como aquela cantora pop meio-doida, meio-gira, meio-irreverente, meio-tresloucada chamada pink.

[nó na garganta]// novembro de 2007.

Um comentário:

teresa disse...

... Doida!

Jokas

armário.roupeiro: cabides.

jaz.mim_tu... aqui, deixara de o ser.

à espreita de fa|c|to & gravata.

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